Thursday, April 12, 2007

há apartheid em moçambique? há sim senhor.

Não é fácil a vida de um português em Moçambique. Parece que todos esperam que me comporte como se estivesse a dever alguma coisa a alguém... Será que os meus antepassados que por aqui andaram se portaram assim tão mal? Ou será que os moçambicanos se habituaram a este estatuto de vítimas? Se sim, por vezes roçam o ridículo nesse exercício.

Para mim, que já nasci uns sólidos anos depois da indepêndencia deste pais, para mim, que vivi desde sempre com a natural convicção de que a cor da pele diz tanto sobre uma pessoa como a cor dos olhos, é particularmente complicado.

Por vezes chego a casa no final do dia completamente desgastado e sem fé. Só me apetece fazer malas e apanhar o próximo avião. Sem olhar para trás. Depois durmo bem, acordo com o Sol e volto a ter esperança que é possível trabalhar, ajudar a desenvolver o país e crescer juntos.

Por amor de Deus pá. Se um gajo levanta um bocado a voz quando um colaborador faz asneiras consecutivas isso faz dele racista? Tudo é interpretado como mau trato, como desconfiança, como ... por favor! Há limites. Moçambique é um país onde em teoria nunca houve apartheid, mas sabem o que eu acho? Acho que há apartheid hoje. Sim. Na Republica Popular de Moçambique, no dia 12 de Abril de 2007, pleno século XXI há apartheid.

Este absurdo regime é hoje, aqui, um pouco diferente. Não foca tanto os locais de convívio, mas mais as responsabilidades e atitudes de cada um. Se é preto, pode se comportar de certa forma, se é branco já tem de se comportar de outra... porra, somos todos pessoas ou não? Mais um exemplo de apartheid: sabem qual é normalmente o primeiro requisito para uma contratação? As competências? A experiência? A formação? O carácter e ética? Não... nada disso. O primeiro requisito é ser moçambicano...

Não me venham por favor, em pleno século XXI com conversas de opressão colonialista pois eu pura e simplesmente não tenho pachorra ok? Dou 200% no trabalho, numa empresa que tem como principais objectivos valorizar a pessoa e ser a referência no desenvolvimento e bem estar de Moçambique, não tenho paciência para gastar o meu latim com estas tretas. Desculpem me os que pensam de maneira diferente, para mim, estas conversas não passam de balelas... e enquanto estamos com balelas não produzimos. Porra.

Sou pragmático. Sempre fui. Às vezes acusam me de inconveniente. Que se lixe. Antes inconveniente que hipócrita.

Não conheço as universidades em Moçambique. A minha opinião, formei-a por contacto com profissionais formados 100% no país. Uma coisa é certa... ou a minha pontaria é certeira, ou um Engenheiro Moçambicano é bem diferente de um Engenheiro formado, por exemplo na Europa (que é o caso que eu conheço).

Nas escolas públicas, os programas e professores mudam constantemente ao longo do ano lectivo, não se sabe o que se vai dar e em alguns casos não se faz ideia do que já se deu.

Isto para não falar na cretinisse que é não aceitar no país uma pessoa qualificada numa área que cá não existe. Uma pessoa que assumidamente faz muita falta e iria melhorar substancialmente a qualidade do serviço do principal hospital do país, apenas porque essa pessoa não é moçambicana. Helloooooo??? Não há Moçambicanos com aquela formação e experiência. Helllllooooooo??? Os que eventualmente existam estão na Europa ou na África do Sul e não tencionam voltar a Moçambique. Hellloooooooo!!!

Os estrangeiros que cá estão não deviam ser apedrejados, deviam ser acolhidos. A nossa presença é boa para o país. Assim como eu já aprendi bastante com Moçambique, espero que Moçambique também aproveite para aprender alguma coisa comigo. É a melhor maneira de desenvolver o país.

Não estou a mandar papaias para o ar. Estou a falar de factos. Factos. Com’on bradas!

12 comments:

ruiC said...

A avaliação de competência por critérios válidos e a irrelevância da cor da pele e da nacionalidade
são conquistas civilizacionais e liberdades que só o tempo consegue construir.
Acredita que tu e todos aqueles que como tu largaram a facilidade de por cá ficarem, ajudam todos os dias a tornar tudo isso uma realidade!

E como sempre... ser pragmático e inconveniente é sempre mais duro do que ser hipócrita .. mas muito melhor !!!!

Força e esperança!

Abrazzis!

mulato said...

pois pá, mas viver com isso é que custa... safa...

Anonymous said...

Bem menino estás mesmo furibundo.
Faz a tua parte e não te deixes ir abaixo!

Força amigo, aquele abraço da neguinha Selmita!

asa_branca said...

Não serve de muito consolo, mas em portugal, esse pais da uniao europeia que se considera evoluído, deparamo-nos com situações diárias de racismo, partidos politicos "anti-emigrantes", golpes baixos para "lixar" holandeses que divulgam o melhor de portugal além fronteiras, etc!Infelizmente, parece que é algo intrinseco à raça humana idependentemente da cor!somos a geração "entre", esperemos que o futuro seja diferente, masi global!vamos tentar ficar imunes e mudar um pouco aqueles que nos rodeiam e que são proximos!sei que é dificil...mas boa sorte!

Pedro Miguel said...

Tem calma! Sei que nem tudo são rosas mas lembra-te que depois da trovoada vem a bonança. Lembra-te também que por cada moçambicano que te acusa de racismo, existem 10 que aclamam a tua existência neste país!
Os que acusam são os que sentem incapacidade de reagir a pessoas com uma formação adequada ao trabalho que desempenham.
Quanto à hipocrisia: saída fácil que não é solução.
Da próxima avisa, e vamos ao piri-piri afogar as mágoas!
Grande abraço!

mulato said...

é pá... há alturas em que não há pensamento positivo que nos salve de quere partir tudo e voar daqui para fora...

um exemplo: estou há mais de 1 mes sem frigorifico... não consigo resolver o problema. é de loucos isto... ora falham os "técnicos" ora falham os "guardas" do prédio, ora falha a empregada... JESUS... será que há alguma coisa que se consiga fazer facilmente em moçambique?????

Anonymous said...

Dá a impressão que não querem cá estrangeiros, em especial os que têm residência permanente. E senão, é comparar: um estrangeiro que consiga um contrato, para a emissão do documento de residência (DIRE)paga Mt 890,00 (mínimo), e nos anos subsequentes Mt 712,00, o que perfaz em cinco anos um total de Mt. 3.738,00. Em contrapartida,a emissão de um DIRE Permanente para residentes estrangeiros (para cinco anos) custa Mt. 6.954,00. Ou seja, não há nenhuma consideração para quem, embora estrangeiro, fez de Moçambique a sua casa e aqui vive e convive, contribuindo com o seu trabalho, conhecimento e amor a esta terra.Parabéns por este blog

Celestino Ferreira Gonçalves said...

Aguenta pá! Isso agora até é um mar de rosas em comparação com os anos pós independência que aí vivi. Para além dessas "afrontas" nem comida havia ( ou era muito limitada )!
Engolir "sapos vivos" por vezes até é necessário!... Pois que o último a rir é sempre o vencedor!...
Parabéns pelo excelente conteúdo deste blog!
Marrabenta

xana said...

acredito k dv ter passado por situacoes de racismo, burocracias extremas falta de respeito e organizacao dos funcionarios publicos ou nao, etc. Nao comcordo k isso seja caracteristica de um povo(Mocambique.
Acho k temos de aprender a ser cientificos. nao falemos a toa- a atitude de 100 pessoas a nossa volta nao eh base pra classificar a forma e o modus vivendi de quase 20 milhoes de pessoas.

Tb detesto hipocrisia.

Anonymous said...

Apenas te digo isto, se és branco e português, sai de Moçambique, por mim também era Europa para os Europeus, Europa branca e Africa para os africanos, para os pretos.
Depois logo iriamos observar o estado civilizacional que os pretos iam ficar.

E já agora, ORGULHO EM SER BRANCO, ORGULHO EM SER PORTUGUÊS

mulato said...

isto é um espaço livre...

evidentemente discordo profundamente dos comentários do sr anónimo.

paz e amor!

Anonymous said...

Sou Brasileiro, branco. Tive proposta de uma grande mineradora brasileira atuante no Moçambique, na área de engenharia. Entretanto essas questões sociais mudaram minhas ideias e não tenho intenção de mudar-me de país, ainda mais após esse relato do que eu exatamente pensava.