Sunday, June 04, 2006

osvalda!

continuo sem veia para a escrita...
vou postar só umas fotos de um sabado TOP em que fomos visitar a familia da nossa empregada martinha a casa dela num dos bairros periféricos de maputo. a ocasião era o "baptizado" de uma sobrinha da martinha que teve a sorte de ser chamada osvalda em honra ao nosso osvaldo! he he!


os filhos do maputo com a martinha, a osvaldinha e a filipa!


aqui com a nossa martinha!
os DJ's!
amor de filha é igual em todo o mundo...

irmão da martinha (o pormenor da kalash é lindo!)

Wednesday, May 31, 2006

>> liks! <<


xiii… ao tempo que eu já não escrevo… bom, tive a visita da liks! =) “in a nutshell”, na primeira semana ficamos a fazer aclimatação a Maputo, cidade, maltas, trabalho… chegado o fim de semana (3dias) fomos para a inhaca - ilha a 40km de Maputo. No fim de semana seguinte fomos ao kruger e dormimos lá no meio com a margarida (no vet camp). Incríveis os ruídos… medo… no dia seguinte vimos mais um mooooonteeeeee de bicharada e ao fim do dia, quando já estávamos a chegar ao portão de crocodile bridge (a queimar o horário de fecho…) somos surpreendidos por dezenas de búfalos na estrada e nas planícies circundantes. Como vínhamos por uma estrada de terra pouco utilizada (recomendada por um veterinário com quem tínhamos almoçado) ficamos com medo (eram meeesmo muitos) e resolvemos que tínhamos de voltar para trás e apanhar de novo o alcatrão para o portão. Resultado: violámos severamente os limites de velocidade e mesmo assim chegamos mais de meia hora atrasados… tugas!
Na semana seguinte tirei umas férias e resolvemos ir para bazaruto! A viagem foi uma aventura para o velhinho toyota que se mostrou merecedor da marca – lendária pela fiabilidade. Quanto a bazaruto foi lindo! Fizemos uma volta de barco pelas ilhas do arquipélago. Só capitão, cozinheiro, guia e nós! Luxo! Só me lembro de desejar ter uma máquina fotográfica nos olhos que tirasse foto sempre que eu pestanejasse! Parávamos para snorkeling, para comer em spots paradisíacos e para dormir. TOP! Foi a primeira vez que me senti recompensado pelos anos de massacre naquela universidade cujo nome não será aqui pronunciado para não estragar isto.
Muitas peripécias se passaram , mas tou com pouca vontade de escrever… deixo fotos pois costumam dizer que valem mais que 1000 palavras!


Thursday, May 04, 2006

kruger





Terça feira fui ao Kruger levar a margarida ao Vet Camp. Não havia transportes públicos para lá… Aproveito para ter um primeiro contacto com o que é “o” parque de bicharada a nível mundial.

Entramos pelos portões de Malelane e vamos até Skukuza, cerca de 65 km. É tudo super organizado e controlado. Uma vez no parque, não se pode passar dos 50 em asfalto e 40 em terra. Fora das horas de “expediente” ninguém pode andar fora das zonas de alojamento. É expressamente proibido sair do carro, blá, blá, blá. Resultado, ir ao kruger é uma espécie de visita ao zoo drive trough! Tivemos o prazer de apreciar os animais no seu meio natural, alguns apenas a 1 metro de distância. É giro. Vi: crocs, hipos, impalas, girafas, elefantes, rinocerontes, kudus, zebras, babuínos e um monte de passarada que não sei identificar. Vi também uma leoa, bicho imponente… estava doente e tinha sido apanhada pelos rangers e levada para o vet camp.

Aconteceu uma cena… safa… a leoa estava meio atordoada na parte de trás de uma bakkie mas estava com os olhos abertos. Os rangers estavam a comentar com 2 veterinários onde é que tinham encontrado, etc. Depois há um que se vira e diz: “She is a fine animal though.” E outro corrige “was… she won’t last trough the night.”. Quando o gajo diz isso, o animal começa a chorar em silêncio. A lacrimejar mesmo. Nunca tinha visto um animal lacrimejar daquela maneira. As gotas transparentes escorriam pela “cara” e pingavam no chão. Incrível… bem sei que os animais não falam e há quem os chame de irracionais, mas que foi uma coincidência que me deixou arrepiado, lá isso foi.

Wednesday, April 26, 2006

"nobody cares about africa"

O domingo foi dos bons… dormir até ao meio dia, passar a tarde e anhar e terminar com um filme. Desta vez foi o Hotel Rwanda…. Não tenho palavras. A primeira vez que vi o filme não consegui dormir a seguir. Desta vez nem consegui acabar de o ver… Os que acham que fui duro nos comentários sobre a intervenção (influência) da Europa em Africa, vejam o filme (baseado – infelizmente – numa história real) e depois falem comigo. Como é que é possível… vergonha…

Como alguém diz em mais um filme de Hollywood: “This is Africa. Nobody cares about Africa…”

Mais um exemplo: as tabaqueiras. Ameaçadas de morte que estão na Europa e States, voltam-se agora para a Ásia e África. Apresar de tudo há pouca gente a fumar em Africa, não há dinheiro. No entanto as tabaqueiras querem inverter essa situação e apostam. Incentivam os mais novos à descarada… vejam esta: na discoteca da moda, a entrada custa aos sábados 300.000 meticais. É caro, mas enche sempre. Na semana passada, uma marca de tabaco resolveu comprar a noite e assim, todos os que comprassem dois maços do tabaco deles, não pagavam estrada. Claro que como os dois maços custavam 40.000 meticais (pouco acima de um euro… ridículo…) toda a gente comprou o tabaco. Eu lá andei com os maços no bolso e à saída ofereci um maço ao arrumador e outro foi para casa onde o fumassa lá deu conta dele. Estão a ver a quantidade de malta que se calhar começou a fumar? Ter tabaco no bolso e álcool no sangue numa disco em que estavam constantemente a interromper a música para fazer publicidade se calhar é uma tentação grande… bom, mas com uma esperança média de vida de 40 anos…
De qualquer modo, o adjectivo mais adequado parece-me um frequentemente usado pelo amigo fumassa: SI-NIS-TRO…

festa

Sábado estamos a organizar festa lá no burgo. Apresentação da casa! Preparamos tudo e com o atraso moçambicano lá começam a aparecer os convidados. Felizmente o passa a palavra funcionou e acabámos por conhecer montes de malta nova e interessante. Tivemos desde marines norte americanos a voluntárias dinamarquesas que tomaram no dia da nossa festa o primeiro duche desde há dois meses! Ao todo tivemos sete nacionalidades (pelo menos… nem cheguei a falar com toda a gente!). Estão confirmadas as suspeitas! Temos grandeeee casa para festas!
Com o passar das horas a casa foi ficando fazia e um grupo de resistentes resolveu dar descanso aos santos vizinhos e arrancámos para o coconuts de onde só saímos já o sol aquecia o Indico.

I´bane

No dia seguinte arrancamos pela madrugada para Inhambane – I’bane para os amigos. Vamos num Pajero longo que a Filipa nos emprestou pois lá para cima o 4x4 é altamente recomendado e até obrigatório para os locais onde queremos ir. Incrível a diferença de desenvolvimento de Maputo vs resto do país… a partir do Xai-Xai (que fica a 200 km de Maputo, num país que tem prai uns 2000 de comprimento é uma desgraça. A estrada estreita, nascem buracos por todo o lado, desaparecem as bermas… até há troços que são de terra (imaginem o lamaçal quando chove…). Os centros de saúde das povoações são pequenas casas certamente sem equipamento e as palhotas tornam-se a habitação predominante. Mesmo I’bane, uma das cidades do país está muito deserta. Parou no tempo… para terem uma noção, corremos os restaurantes e cafés todos no sábado e nenhum tinha TV para se ver o futebol. Acabámos por ver numa residência de estudantes da universidade da terrinha! Quando o Porto ganhou foi um festival, mas pelo que tenho visto, se fosse o Sporting o vitorioso a festa seria igual. Este povo quer é festa!

Assim como a ponta do ouro, estas praias são também colonatos sul africanos. Tudo é invadido por eles campinómanos que com os seus super4x4 que até casa de banho devem ter. Invadem Moçambique mas não deixam cá nada pois trazem tudo, rigorosamente tudo, da Africa do Sul… Os campings e resorts onde ficam e os bares que frequentam são também de sul africanos e em todos somos atendidos em inglês… os preços são em Rand, etc.

Quanto às praias propriamente ditas – principalmente Tofo e Barra, devo confessar alguma desilusão (se calhar também por causa de ter andado 1200 km para lá ir e voltar…). O Tofo é uma espécie de fonte da telha, mas com água mais quente. A Barra, um pouco mais exótica pelo seu branco areal ladeado de coqueiros e águas transparentes deixou-me um pouco mais satisfeito, mas não apaga o sentimento de frustração pelos 1200km de viagem… acredito que sejam locais fantásticos para mergulho, razão pela qual hei de voltar – breve – quando tiver o curso.
Embora tenhamos trazido tendas, o Osvaldo põe completamente de lado a hipótese de campismo e assim ficamos em lodges. Na primeira noite, no Tofo, ficámos numa camarata de 10 camas (mais para backpackers) e na segunda, já na Barra, num chalet rodeado de coqueiros mesmo à beira mar. Saímos do chalet (com cozinha) e vamos para a praia onde volta e meia passam mamãs a vender peixe e camarão recém pescado… Não se está mal! O único problema são umas medusas que andam no mar e quando picam deixam umas marcas dolorosas… lado positivo: o mar está tão transparente que essa bicharada se consegue ver a relativa distância. Ainda assim não consigo relaxar e completamente usufruir do belo local onde estou.
Visitámos também o famoso Flamingo Lodge. Fomos beber uma laurentina no bar porque o Afonso estava lá também a passar o fim de semana com a família. O spot é bonito, mas naturalmente não é como as fotografias no web site o pintam… o fotógrafo deve lá ter passado uma semana para fazer meia dúzia de fotos e depois, a sensação à chegada é uma quase invariável desilusão (principalmente para quem vem de Portugal e paga um balúrdio para passar ali uma semana…).

Nas zonas de passagem de turistas já se vêm crianças com as habituais macaquices (neste caso dançavam cobertos com ramos) para cravar desesperadamente qualquer coisa… isto tira-me do sério… cria péssimos hábitos para as crianças e nas zonas que já têm este tipo de turismo há mais tempo os putos chegam até a mandar pedras a quem não dá nada.
E nós, turistas, invariavelmente damos qualquer coisa, ou pior ainda – atiramos dos carros em andamento… pode ser com a melhor das intenções, mas de boas intenções está o inferno cheio… não façam isso por favor. As crianças esfolam-se pelas canetas ou rebuçados, andam à porrada e por vezes até são atropeladas no meio destas sessões de “bom samaritanismo” de quem passa e na altura quer ajudar e fazer qualquer coisa para se sentir melhor, mas que depois rapidamente esquece o problema… é tão fácil: “ahhh coitadinhos… que condições miseráveis…” “deixa dar qualquer coisinha…”
Querem ajudar? Ajudem as associações que desenvolvem trabalho nessas regiões, apoiem a nível da comunidade, envolvam-se. Há varias entidades credíveis que aceitam ajuda. Tudo é mais útil do que atirar rebuçados e umas moedas como quem atira migalhas de pão seco aos pombos… Já pensaram que se tivessem crescido num local em que todos os dias passava alguém que deixava 500 ou 1000 paus se estivessem na beira da estrada a fazer macaquices certamente não seriam o que são hoje? Opção: ir para a escola e apenas receber estímulo, educação e orientação (bens pouco tangíveis para crianças) ou ir para a beira da estrada e chegar ao fim do dia com uns trocos e rebuçados no bolso? Escolha complicada…

Eu também tive esse comportamento – vejo hoje, de babuíno – a primeira vez que fui a Marrocos, mas rapidamente me apercebi que fazia mais mal do que bem e deixei de o ter. E o que levo em troca? Agressividade por parte das crianças, porque não dei nada e incompreensão por parte das pessoas a quem eu peço para não fazer isso e tento explicar as razões…

Velocidade de cruzeiro

Praticamente passaram dois meses desde que cheguei. Estou a atingir a velocidade de cruzeiro em relação a Maputo. Quanto ao resto do país, ainda… Este fim de semana devemos ir para os lados de Inhambane. Parece que há por lá spots próximos da nossa noção ocidental de paraíso! Há ainda tanto tanto para explorar neste país e arredores!
Quanto a trabalho… bom… Sinto-me uma Alice a cair pela toca do coelho… Why? Oh why didn’t I took the blue pill?
Regra: aparentar estar sempre na boa, mas estar sempre alerta. Bem alerta… a qualquer altura nos esticam o pé e estamos esticados ao comprido pela chão fora.
Africa… mesmo situações banais se podem transformar em grandes problemas… há que estar muito atento e acreditar forte e feio na intuição. Viram o filme “A Interprete”? Com a Nicole Kidman. Há uma cena, quando umas crianças assassinam o irmão dela (filmada na praça de touros de Maputo) em que há indícios que algo vai correr mal... olhares, ambiente… Estão a perceber o que quero dizer? Claro que na cena do filme o gajo é morto e eu estou a falar em situações de uma escala completamente diferente (aliás, outra escala), mas a ideia é a mesma.
Por exemplo no domingo, fomos explorar os arredores da cidade para os lados da costa do sol. Fomos a um mercado de peixe na praia, vimos os locais onde têm andado a filmar um filme qualquer com o DiCaprio e depois entrámos um bocado pelo bairro (perfeitamente pacifico, seguro, etc.). A certa altura uns polícias mandam-nos parar, documentos, etc. e mandam-nos sair do carro. Hummm… ok… começaram a revistar o carro todo e eu no tal estado de aparentemente na boa mas alerta intui algo de estranho nos polícias. Talvez fosse paranóia, talvez não, mas a verdade é que algo me fez ligar o sistema de alerta e fui me pôr a inspeccionar o polícia que estava a revistar o carro. Quando ele viu que eu não estava a dormir (embora eu estivesse com a minha melhor postura de nacional porreirismo a perguntar coisas sobre um outro mercado de peixe, etc.) houve ali qualquer coisa estranha que nós não entendemos e de repente, devolvem-nos os documentos, mandam-nos entrar para o carro e fazem sinal para seguirmos. Hummm… ninguém me tira da cabeça que aqueles gajos estavam para nos lixar e algo os fez mudar de ideias… ou gostaram de nós, ou sentiram que nós estávamos atentos ao que estavam a tentar fazer (esconder droga ou armas no carro, para imediatamente ou mais tarde nos lixarem forte e feio)… confesso que não sei e provavelmente não seria nada disso, mas lá que algo não me cheirou bem, isso é facto. Espero nunca ter de adoptar o discurso de ultimo recurso e utilizar o meu DIRE que me identifica como pessoal da embaixada portuguesa, logo, com direitos de diplomata!

FIM DE SEMANA PROLONGADO!!! Pego no carro para ir para casa e como costume dou boleia a algum pessoal da empresa. Ao deixar dois deles, num daqueles mercados típicos, resolvi sair também para comprar alguma fruta e aproveitar o facto de estar acompanhado de habituées (não sei se está bem escrito) para entrar num mercado onde não entraria sozinho. Comprei uns cocos e de seguida ofereci uma cerveja aos mecânicos que estavam comigo. Foi porreiro estar um bocado ali no meio daquele pessoal, a curtir as conversas e ambiente verdadeiro de Maputo.

swazi, 2ª semana

Começo a ficar ambientado a esta santa terrinha onde não se passa nada. Parece que parte do meu mal-estar e cansaço crónico nos primeiros dias cá se devia há habituação do organismo à altitude. Pelo que me dizem, Mbabane tem uma cota de cerca de 1800 metros e na Ngwenya (lê-se “inguenha”) onde ficam as oficinas estamos quase a 2000. Parece que não, mas mexe com o corpo…
De manhã alteram-nos a hora de uma reunião com um potencial cliente e de repente ficamos com duas horas livres e nada para fazer! Resultado: fui com o Andrews (o tal swazi com sangue real) conhecer algumas peculiaridades de Mbabane. Daquelas que os estrangeiros (e muito menos os turistas) nem sonham!
Primeiro fomos ver o local onde está sepultado o fundador da cidade, o próprio Sr. Mbabane. Estava à espera de encontrar um monumento, mas não podia estar mais errado. No meio de um baldio está um amontoado de pedras rodeado de capim alto… é isso! O túmulo do fundador da cidade apenas têm uma velha, pequena e partida vedação a proteger (se estivesse inteira) um monte de pedras… ok…
De seguida fomos ao mystery pond! O mystery pond - manjolo fica num local lindíssimo nos arredores da cidade e é um local muito importante para um dos clãs fundadores da Swazi os Msibi. Os Msibi são um dos clãs Bantu que na sua fuga (difaqane) das barbáries do famoso Shaka dos Zulu (A.K.A. Shaka Zulu) se fixaram nestas terras. O pond (charco…) é importante para os Msibi porque é utilizado quando há disputas de liderança no clã. O funcionamento é simples, metem-se os dois candidatos com tochas acesas de um lado do manjolo (muuuuiiito fundo, pelo aspecto e pelo que me contaram penso tratar-se de um algar) e é eleito líder o que conseguir atravessar o manjolo (submersão total) e aparecer do outro lado com a tocha ainda acesa. Todos os anos, os Msibi fazem romarias para ir fazer rezas e feitiçarias ao pé do seu precioso manjolo. Mistiquisses à parte a verdade é que todos os que tentaram explorar ou alterar o charco (incluído uma equipa de mergulhadores ingleses e um operador de uma giratória que tentava abrir uma vala para tirar água) morreram. Facto é que a região em redor do manjolo se mantém completamente virgem embora estejamos perto da cidade e a toda a volta (com a devida distância) haja construções (safa, está cá uma trovoada lá fora agora…).
Outro facto é o curioso desvio que o rio faz para se afastar do pântano… o rio parece desviar-se desafiando a gravidade só para fugir do manjolo mystery pond…

É tão diferente a cultura africana… clãs, crenças místicas fortíssimas (ainda existentes), etc… conhecendo, mesmo apenas uma pontinha, da verdadeira cultura africana é fácil compreender porque há tanta dificuldade em adoptar o sistema que os colonizadores tentaram implementar e que quando viram que não era fácil abandonaram deixando este continente imerso na confusão… Há diferenças enormes… no sistema tradicional africano, um rei (diferente do monarca europeu) para ser rei tem de cumprir várias condições (está uma trovoada que me encandeia e faz tremer a casa… safa…) e ser apontado por um grupo de sábios variados. O antigo rei tradicional africano governava em conjunto com os conselheiros e também em conjunto com a pessoa que ele respeitava acima de tudo, a sua própria mãe. O novo líder africano, consegue chegar a presidente de um dia para o outro (metaforicamente falando claro) à força através de um golpe militar, mantém-se no poder através de eleições traficadas e cedo se torna um ditador cujo único objectivo é comer o máximo sem respeito pelo povo…
Nós introduzimos a democracia, mas não a ensinamos em condições nem demos (porra… os vidros abanam todos… mando cada salto da cama…) tempo suficiente para esta malta maturar a ideia… o resultado tem se visto nas ultimas décadas… Será que era assim tão difícil compreender que esta sociedade assentava em princípios completamente diferentes? Valores e crenças diferentes? E viviam assim há milhões de anos em alegria e paz (fora a ocasional e natural pega com o vizinho por causa de terras…).
Não condeno os pequenos que vieram para África fazer o melhor que podiam para tentar desenvolver esta região. Condeno os estrategas, os que decidiram avançar com uma “civilização” que impunha tudo de novo em vez de encontrar um novo equilibro juntando o melhor de dois mundos… como disse um dia o sábio rei Sobhuza II da swazi: “um piano só toca bem quando são utilizadas as teclas pretas em conjunto com as brancas.”. Enfim… tenho de continuar a amadurecer esta ideia.

Continuando com o tour à verdadeira swazi, o andrews leva me de seguida à Msunduza, um bairro tipo favela (onde os mulungos não se aventuram sem estar acompanhados de alguém local e influente) e mostra-me a casa onde o Samora Machel e o seu amigo mais novo, o Guebuza (actual presidente de Moçambique) estiveram escondidos dos tugas pelas suas ideias revolucionárias.

prisão na swazi

Fui passar 2 semanas à Swazi em trabalho. Chega o fim de semana e para grande luxo, acordo às 9. Durante a semana o normal era acordar às 6… A minha malta vem me visitar no fdsm, mas enquanto não chegam, decido ir dar uma volta a pé por Mbabane. Só andar pelas ruas, ver o ambiente, sentir os cheiros… bom… fora um centro comercial não há um único cafezinho com esplanada para eu me sentar a degustar um filter coffe (nem expressos há aqui… sniffff…) continuo a caminhar na vã busca pela minha esplanada e passo por zonas que embora aparentemente mais limpas que Maputo, têm por vezes cheiros nauseabundos. Não consigo perceber de onde vem o cheiro, mas volta e meia dobro uma esquina e lá está ele… terrível e sem grande razão aparente. Em Maputo, há lixo pelas ruas, águas duvidosas a escorrer, etc. agora aqui? Aparentemente limpa, Mbabane deve ser de descendência francesa…
Nisto passo uma rua e ainda vou a meio quando começo a ouvir um apito. Olho na direcção do som e vejo um polícia que vem na minha direcção. Apercebendo-me que é comigo, paro e espero para ver o que ele quer. Deve querer ver a minha identificação ou avisar-me de alguma coisa penso descansado. Quando ele está a chegar ao pé de mim lembro-me que deve ser algo relacionado com a máquina fotográfica. Errado…
- “You know sir, in swaziland you can’t cross a street outside the pedestrian areas.
- Really? Sorry, I didn’t knew that. I won’t do it again. Those lines there mark the proper areas?
- Yes.
- Ok! Sorry. (e preparo-me para ir embora, mas apercebo-me que a história não vai ficar por ali) So… what is the fine?
- No fine sir, we are arresting. (por um segundo deu-me vontade de soltar uma gargalhada, mas quando ele me agarra o braço, a força que faz deixa claro que está a falar a sério.
- Really? You are arresting me for his? No way.
- Yes sir, we have to go now.”



E sem mais nem menos, puxa-me pelo braço e enfia-me numa ramona. Imaginem tudo o que tinha na cabeça nesse momento… Quando entro para a carrinha apercebo-me que não era o “tourist trap” que eu pensava pois já lá estavam umas outras 8 pessoas swazis. Em conversa, descubro que por vezes fazem isto. Metem-se à espreita e apanham quem passa fora das passadeiras. As pessoas estão revoltadas, mas mostram-no moderadamente e sempre a ver se os polícias estão a ouvir. Segundo eles, os cretinos dos polícias perdem tempo com isto, a chatear os sérios e trabalhadores, enquanto os violadores e ladrões andam a monte. Naturalmente esta revolta só é demonstrada quando os polícias não estão a olhar… xissa, isto deve ser pior que Portugal antes da revolução…
Pelo caminho ainda consigo tirar uma foto, mas pela reacção dos meus colegas criminosos, acho inteligente estar sossegado e discretamente tirar a bateria da máquina, caso os polícias quisessem ver o que tinha andado a fazer. “nothing you see, the batteries are down.”

Chegados à esquadra (com direito a uns toques de sirene da ramona pelo caminho e tudo!) levamos todos um chá sobre o perigo de não passar nas passadeiras e explicam-nos que temos de pagar 60 emalangeni (moeda local indexada ao rand) de fiança ou então esperar por julgamento que seria segunda feira (2 dias numa prisa africana?? Nahhh…). 60 emalangeni são perto de 10 euros, mas para terem noção, as multas de excesso de velocidade cá variam entre os 10 e os 60 emalangeni. Ou seja, 60 é pesado… Alguns de nós pagam a fiança e recebem um fantástico recibo que descreve a transgressão como: “conducting himself in a manner likely to constitute a source of danger to himself” ok... Aprendi a lição! Aprendi também que quando se tem um passaporte especial (com direitos diplomáticos segundo parece) anda-se com ele… tinha me safo disto tudo se não o tivesse deixado na gaveta da mesa de cabeceira…
Outros não pagam a multa e lá ficam até segunda-feira ou até que alguém lá vá pagar a fiança. E depois do julgamento, caso culpados (quase sempre) ou pagam, ou ficam dentro 30 dias, explicam-me à posteriori na atlas.

10 euros e não tenho direito a que me deixem no local onde fui caçado (tinha o carro lá ao pé). Raios, tenho de ir a penantes…

Com estas voltas todas a minha malta já tinha chegado e vou ter com eles em pulgas por cantar mais esta aventura para currículo.
Almoço e volta turística pela swazi. Fomos ver o Sibebe rock, que segundo os swazis é o 2º maior monólito do mundo, a seguir ao Ayres rock, down under. Estranho… onde é que eu já ouvi isto? Já na Mauritânia me tinham dito que um mega calhau que lá está no meio do deserto (não me lembro agora do nome) era o 2º maior… cada um puxa a brasa à sua sardinha!

À noite decidimos dar-nos ao luxo de ir ao melhor restaurante da swazi! Reservas feitas lá vamos ao famoso Calabash! Empazinamo-nos com um banquete digno da nossa condição de “nata da nata”, “guarda avançada do plano tecnológico”, e outras barbáries que nos chamaram na lavagem ao cérebro que foi o curso intensivo de gestão internacional que tivemos em Lisboa antes de nos espalharem pelo globo e quando nos estávamos a preparar para tremer com a conta, o Luís, dono da Atlas motors (empresa mãe da empresa onde estou a trabalhar) chega-se à frente! Catita!

Friday, April 21, 2006

Kalashnikov!

Lembram-se das ubíquas kalashnikovs? Afinal funcionam. Medo…À noite, estamos nós numa esplanada mesmo à porta de casa a jantar e começa alto granel… seguranças a correr, gritos, etc. Ao mesmo tempo, um colega – que tinha ficado em casa – liga com voz de caso. “onde estão?” “não entrem com o carro para a garagem… está lá um gajo esticado. Levou um tiro.”
Chega a policia. Parece que houve uma desavença qualquer entre dois seguranças e foi resolvida, naturalmente, ao tiro. Dizem que o gajo não morreu, “acertou na perna”.
Muito medo… avisam-nos que a vida cá vale muito pouco e as centenas de seguranças armados que há pela cidade são, na sua maioria ex-combatentes, passados da cabeça e com nostalgia pelos tempos de guerra e sangue. Esperemos que a emoção de jogar damas com caricas o dia todo lhes vá servindo de escape por muitos e bons anos. Anyway, a lição está aprendida. Sê cortez para os guardas. Não te metas em qualquer espécie de confusão. Sê invisível. A vida por aqui vale pouco…

Descubro por acaso algo muito interessante, mas que não posso escrever aqui e nesta emoção chega novamente a sexta-feira! Desta vez resolvemos ir conhecer a famosa estação de comboio de Maputo. A tal do também famoso Eifel… Parece que há um jazz bar na estação e por vezes à noite tem concertos fixes. Depois de uma matapa oferecida pelo Ricardo, patrão do Miguel e responsável pela Plural Editora (Porto Editora) rumamos à estação. Cenário grandioso e admirável surpresa… um grupo de músicos (maioria para os percussionistas) toca em plena linha do comboio, num vagão “flat bed”. Lindo o som, lindo o ambiente, linda a originalidade, linda cidade esta onde quem queira, todos os dias tem boa musica ao vivo, exposições ou cinema em variados centros culturais.
De seguida decidimos experimentar o badalado Coconuts, mas pessoalmente não saio fã… muito dinheiro investido, muita gente, mas pouca alma e péssima musica (para os meus gostos claro…) e péssima qualidade de som.

Africa – continuação

Nas minhas deambulações tinha outro dia terminado com a questão: porque é que África sempre teve um estado de desenvolvimento económico inferior à Europa. Bom… há teorias que dizem quem África não se desenvolveu tanto como a Europa porque deixou o nomadismo mais tarde devido à dificuldade em domesticar os animais. Segundo alguns estudiosos do assunto é este o cerne da questão. Enquanto na Europa os nossos animais facilmente foram domesticados e postos a nosso serviço, em África, os animais autóctones, na maioria muito mais selvagens em nada ajudaram as tribos a evoluir – excepto na caça. Tudo o resto depois é consequência desta premissa. Os europeus criavam animais, logo andavam mais bem alimentados que os africanos que tinham de estar sujeitos às incertezas da caça. Os europeus tinham o cavalo para se deslocar e transportar cargas, os africanos não… seria interessante ver uma carruagem puxada por gnus ou girafas…
Outro factor: clima. Embora tenhamos na nossa história pelo menos um exemplo de uma civilização que conseguiu um elevado estado de desenvolvimento e conhecimentos científicos (só não conheciam era a pólvora utilizada pelos espanhóis…) mesmo vivendo numa região tropical, penso que o clima também ajudou a atrasar o desenvolvimento. Na Europa o clima é temperado/frio o que, como a necessidade aguça o engenho, pressionou ao desenvolvimento de cada vez melhores habitações e todos os sistemas adjacentes. Com as melhores habitações, melhor alimentação e melhor capacidade de transporte, o resto depois vem por acréscimo. Já em África, o clima maioritariamente quente que se vive todo o ano, não só fez com que o desenvolvimento de habitação não fosse um problema como ainda tira a vontade de trabalhar. Convenhamos, por mais adaptado que se esteja ao clima, não é fácil trabalhar nas condições climatéricas que muitas vezes existem cá...

Será isso?

Ponta do Ouro - colonato Boer em Moçambique

Mais um fim de semana! Destino? Ponta do Ouro – extremo sul de Moçambique. A viagem demora mais de três horas, quase duas em areia solta só para 4x4. Entre cabeçadas no tecto e protestos de quem vai na chapa lá chegamos. A casa onde vamos ficar é indescritível… em madeira, construída na praia e equipada com os mínimos: mega sistema de som, mega frigorífico, bons quartos, bons sofás, etc. A casa não é profissional de aluguer. É de um sul-africano que aluga a amigos. “it appears you know someone who knows someone who knows the owner…” “ok… 2300 rand for the weekend” diz-me uma Sul Africana que trabalha no café del mar – ponta do ouro e tem as chaves da casa.



Deslumbrados com a casa e com a praia lá entramos de cabeça para o Indico e cedo nos apercebemos que naquela zona o mar não é para brincadeiras. Ou se está muito à vontade na água ou é melhor não passar da água pela cintura… há correntes em vários sentidos. As ondas, fortes como as do centro/norte de Portugal quase me arrancam os calções duas vezes. Quando sinto que estou a ser arrastado por uma corrente, mergulho e nado junto ao fundo para descobrir outra completamente diferente em sentido, mas igual ou pior em intensidade. A condição de não escorregamento – teoria de Mecânica dos Fluidos aqui nada vale. Enfim… um local onde é preciso ler o mar e nunca perder a calma nem esgotar as forças contra correntes impossíveis.
Depois do oxigenante banho e de uma sesta daquelas que sabe pela vida arrancamos a pé pela praia para ver um pouco do resto.
Tinha-vos dito que a Ponta do Ouro é em Moçambique certo?
Errado… a Ponta é um colonato Bóer (sul-africano). Só há sul africanos… os preços estão em Rands, e até a língua usada (mesmo pelos empregados moçambicanos) é aquele inglês característico (leia-se terrível) que se fala cá para baixo. Incrível… barcos, motos de água, kite surfers, bmw X5, belas motos (trail claro). Muito nível… Boa qualidade de vida (financeira e não só) se respira por aqui.
Este é daqueles sitos que nos faz pensar na vida e na correria e stress com que a levamos.


Como o Gonçalo Cadilhe gosto do sal marinho no corpo e assim passo o fim-de-semana só com banhos de mar! O pior é o cabelo… palha-de-aço! Só me hei de passar por água doce no domingo antes de arrancar para Maputo e apenas por uma questão social… toda a gente a tomar banho... parece mal!
GOOOOOOD MORNING PONTA DO OURO!!! 8 horas de sono fazem-nos renascer (quais Fénix) e lá arrancamos em missão exploratória. Descobrimos uma zona da praia cheia de pequenas piscinas no meio de coral, água transparente… enfim… vou ficar por aqui… não me sinto capaz de fielmente descrever o local.

Começa a chegar a hora de ir embora… custa… ainda não saímos e já estamos com vontade de cá voltar. A casa tem um livro onde quem por lá passa pode deixar umas linhas. Pouca gente… Estamos em Março e somos os primeiros de 2006. O que escrever? Sento-me com o livro na mão e olho em redor. Rapidamente sei o que sinto e com aquele sorriso de gato escrevo simplesmente: “Lucky us!”

Como o caminho foi duro e a confiança na bakkie japonesa (bakkie é o que chamam cá às pick-up) é perto de zero faço uma pequena inspecção. Óleo e água ok! Gasóleo ok! Fugas? Nada de especial! Pneus… ooopppsss… 3 ok, 1 ko… prego… parece que o furo é lento e decido encher bem antes de sair e esperar que chegue a Boane (local a uns cento e picos km onde vamos apanhar o alcatrão). Lá haverá bombas onde encher novamente e assim há de chegar ao Maputo.
Mais um bocado de dolce faire niente, mais um prego – desta feita no pão, para forrar o estômago – e lá arrancamos. Levamos quatro passageiros extra e nem imaginamos como vão ser úteis…
Com a chegada das primeiras areias ficamos atascados… raios… a curva em subida nem parecia assim tão difícil. Deve ser do peso penso. Aliviada a carga tento novamente e nada. Aí reparo que nas rodas da frente, tracção nada. Mais bolos… ok: cubos? Lock! Caixa de transferências? 4L! Estranho… partiu… se calhar não é assim tão estranho como isso… 270mil km e pouca manutenção… Solução: Meter o pessoal a empurrar, Diff lock traseiro ligado, leitura cuidadosa do terreno de modo a poder aproveitar o momento do cangalho e tudo há de correr bem.
E correu! Ninguém imagina a temperatura a que deve ter chegado aquele eixo traseiro, constantemente a plissar em esforço pelas tórridas areias. Eu faço uma ideia, mas não digo nada a ninguém…
Se o Shlesser faz o Dakar só com tracção atrás por que raio é que não havíamos nós de conseguir regressar a Maputo?
Passámos por uma outra bakkie que se arrastava a palmo pelas areias. A cena era linda: condutor ao volante, umas dez pessoas na chapa como se nada fosse e um desgraçado num esforço surreal a empurrar.

Mais mortos que vivos e depois de 4 horas de porrada no lombo alguém pergunta: “se te dissessem que se voltasses agora para a ponta podias lá ficar uma semana, voltavas?” resposta unânime… SIM!

Segunda-feira, sete da manhã. Volto ao batente fazendo-me à estrada. São 20 km até ao Zimpeto que é onde fica o estaleiro da MozEquipments. Em contraste com o fim-de-semana, o dia amanhece cinzento e também eu estou meio cinzento e com pouca paciência para esta selva… o trânsito é o caos. Das duas faixas fazem-se cinco, ou seis, já nem consigo ter a noção de faixa de rodagem. Sou ultrapassado pela direita, pela esquerda, como fumo, muito fumo (e aqui ainda de usa gasolina super…) passo buracos, altos, crianças a correr, animais, “chapeiros” (que é tipo “fogareiros” em Lisboa), machibombos pré-históricos em estados e com cargas indizíveis e cabritos em equilibrio em cima delas, vendedores de tudo e mais um par de botas… ahhhhh… eu que não tinha pachorra para trânsito em Lisboa tenho de vir gramar com quarenta minutos de massacre todos os dias… safa… é castigo. E a minha bela, jovem, potente e segura Honda CBF600 na garagem…
O que vale é que se vê sempre algo que faz soltar uma gargalhada! Desta vez era um artista, na berma, a pseudo-soldar uma lança de um daqueles carrinhos de transportar cargas à mão (uns que têm uma zona de carga plana, duas rodas de bicicleta e uma lança com pega para o condutor). Uma fogueira no chão, a zona a reparar por cima e o resto só a cabeça dele saberá pois eu já não tive tempo para apreciar mais nada.

Africa, whatever you thought, think again…

Certo dia, durante o regresso de uma viagem de trabalho pedi ao Afonso (administrador da empresa onde estou) para abrandar para eu tirar uma foto ao pôr-do-sol sobre a savana. Qual o nosso espanto quando uns putos que caminhavam pela berma (deviam estar a regressar da escola ou assim) param uns segundos a olhar para o carro a abrandar e a encostar à berma e de seguida disparam a correr em todas as direcções para o mato, desaparecendo rapidamente no capim… Uouuu… embora estes putos já tenham nascido em tempo de paz (deviam ter no máximo 10 anos) o instinto disse-lhes para fugirem… incrível… ficamos sem palavras.
Viver em África é uma lição de vida para quem como eu cresceu na Europa cheia de regras, moralismo barato e egoísmo inato. Durante toda a nossa educação somos protegidos da vida, cheios com regras de conduta, “moral”, “boas maneiras” que como são impostas e não adoptadas naturalmente têm um resultado artificial.
Esta super protecção leva infelizmente a que as pessoas cada vez vivam menos e assim é perfeitamente normal chegar-se ao fim de um curso universitário, com 25 anos, sem saber nada de jeito sobre a vida… sabe-se jogar um monte de jogos de computador, sabe-se absolutamente tudo sobre um outro jogo que consiste em correr com uma bola e fazer com que ela entre num local defendido por um adversário, sabe-se em que lojas e em que locais é melhor comprar determinados produtos, sabemos tudo sobre complicadas teias da vida de personagens de ficção e não conhecemos sequer o nome dos nossos vizinhos, não nos interessamos pelos pontos de vista de tantas outras culturas tão diferentes da nossa e com as quais podemos aprender coisas interessantes e úteis, não fazemos ideia de como vive grande percentagem dos irmãos humanos com quem partilhamos este planeta cada vez menos azul, não fazemos ideia que o nosso estilo de vida é absolutamente insustentável e que se todo o mundo vivesse como nós, seriam precisos os recursos de uns dez planetas, etc. Sabemos tanto do mundo que, por exemplo, não fazemos ideia que morrem mais pessoas por afogamento do que à sede no Sahara. As relações com colegas e amigos, muitas vezes apenas abordam assuntos superficiais ou então servem para comparar factores indicadores de sucesso (para o qual toda a sociedade tanto nos pressiona). E até estes indicadores estão corrompidos… sucesso é ter um telemóvel topo de gama, enfiar durante 15 dias por ano a cabeça na areia num resort “paradisíaco” de preferência noutro continente sem querer saber dos fantásticos locais que temos no nosso país, é andar de BMW e poupar no dentista. Não sabemos bem o que é a vida. Vivemos empolados pela magnificência da nossa tecnologia mas já não sabemos curtir um céu estrelado que nos faz sentir tão pequenos, insignificantes e felizes nessa pequenez. E mesmo que quiséssemos curtir um céu não seria fácil… Há demasiada luz em todo o lado. Vivemos a olhar para o nosso umbigo… somos tão parolos… safa, apesar de já termos estragado parte de África, temos tanto a aprender com ela…

E não julguem que estou armado em espertinho… o que descrevo, descobri pelo facto de ter saído. Estou-nos a ver de fora. Estou-nos a ver de um continente que na sua maioria vive com dignidade e alegria na pobreza. Estou-nos a ver de um local onde nada é mais importante que a família, a comunidade (amigos). Alguém na família que esteja melhor que os restantes divide a sua riqueza com todos. Estou num local onde a experiência de vida dos idosos é a sua maior riqueza e não o património imobiliário. Estou num local que é tido pelos países “civilizados” como atrasado, subdesenvolvido e no entanto, a nível comunitário, todas as decisões são tomadas por homens e mulheres em conjunto devido a ser sabido que têm diferentes pontos de vista. Num local onde uma criança de 15 anos já tem a postura e raciocínio de adulto. É verdade… não é só a minha opinião, mas sim a opinião generalizada de quem conheça a realidade europeia e esteja agora a morar em África.
Vejo a nossa cultura de um local que apesar de ter sido brutalmente explorado e sofrido nos últimos séculos barbaridades indizíveis pelas quais somos os principais responsáveis continua a tolerar a presença dos europeus e a ser na generalidade amigável.
Vejo a nossa cultura de um local onde crianças entre os 6 e os 18 anos, a viver numa daquelas casa para crianças que comeram o pão que o diabo amassou se reúnem uma vez por semana, sozinhas e por sua livre e espontânea iniciativa de modo a discutir e resolver os problemas e o dia a dia da sua pequena comunidade… impressionante!

Será que fizemos tudo errado? Por que diabo julgamos que tínhamos o direito de chegar a um continente, sugar os seus recursos e riquezas e escravizar as suas gentes? Porquê “civilizámos” à força e sem qualquer respeito pela cultura local as gentes de África só porque se encontravam num estado de desenvolvimento bélico mais atrasado? Sim, porque se pudessem, teriam certamente dado luta… Porque não aproveitamos para aprender, trocar ideias e enriquecer ambas as culturas?
É fácil pensar que os pretos são burros, ou que os azuis são tarados ou que os vermelhos são cínicos, que os brancos são ambiciosos e egoístas, etc. Nós temos, em geral, o raciocínio lógico mais desenvolvido, eles, a intuição, a sensibilidade, a inteligência emocional . Por vezes os africanos têm dificuldade em nos acompanhar em raciocínios que para a nossa cultura são naturais, desde sempre que somos estimulados para a lógica. Desde pequenos, a nossa vida é na base do “se x então y”. Eles não. Ou pelo menos não tanto. Mas e nós? O que sabemos nós da cultura deles? NADA! Nós é que devemos parecer completamente BURROS. Escolhi a palavra “parecer” de propósito. Porque numa generalização como esta que estou a fazer, não há lugar para burros ou inteligentes, o que há são culturas diferentes. É obvio que há pessoas mais ou menos inteligentes em todo o lado. Acredito sim que certas etnias têm maior predisposição para determinadas áreas, isto claro, generalizando. Os africanos têm, por exemplo uma noção de ritmo invejável, são bons em relações humanas, inteligência emocional, são hábeis, têm uma capacidade de adaptação bombástica, os asiáticos têm boa capacidade de raciocínio analítico e são minuciosos, etc. etc. etc. Nós confiamos na lógica. A ciência é o nosso Graal. O deles? A intuição, sensibilidade. Quem está certo? Quem está errado? Ninguém. Será isso tão difícil de compreender aos chamados racistas que não faltam em todas as diferentes etnias? Sim etnias, porque raça há só uma: humana.
Reforço que nestas últimas linhas estou a fazer algo que não gosto muito. Generalizar. Claro que há excepções e se calhar não são poucas, mas eu estou a falar da generalidade.

Nas minhas primeiras vindas a África vinha com um cocktail de preconceitos impostos pela comunicação social que nas últimas décadas só nos faz chegar mensagens de desgraça e miséria. Mas a culpa não é dos jornalistas. Esses só fazem o que lhes mandam fazer. A culpa é dos directores das estações que só os mandam para tragédias. Mas o trabalho dos directores é fazer com que as cadeias de TV dêem dinheiro e isso consegue-se mostrando o que as pessoas querem ver. Assim, em última análise a culpa é do suspeito do costume… a sociedade. As TV só mostram desgraça, porque é o que as pessoas querem ver. A desgraça alheia vende… Infelizmente. Quem é o psicólogo que me explica isto?
Como se não bastasse ainda vendemos para África, através das novelas, uma ideia de que a vida na Europa e USA é um mar de rosas. E depois é vê-los aos milhares a arriscar a vida para atingir um eldorado que não é bem o que pensam… só na faixa mediterrânica morrem em média por dia cinco emigrantes ilegais. E a tendência está a aumentar…
Como eu estava a dizer, nas minhas primeiras vindas a África fiquei espantado… há ar e não é tóxico! Continuo e vou confirmando as minhas restantes suspeitas… há solo, firme e fértil. Há água, há sol, há crianças alegres, há tudo! Ainda por cima, o clima parece mais agradável que o gélido norte da Europa. Então por que raio de razão África de encontra neste estado? Rapidamente chego à brilhante conclusão de que África sofreu e sofre ainda por causa do modo como foi explorada, mal colonizada e pior descolonizada pelos nossos antepassados. Brilhante… ou então não. Porque é que fomos nós a colonizar África e não o contrário? Pois é… África sempre teve um estado de desenvolvimento económico inferior à Europa... porquê?

A continuar…

Twenty six…

2ª Feira, faço 26 anos… já tou mais para os 30 do que para os 20… este filme passa maningue rápido… Quanto mais vivo mais aprendo e isso há de fazer de mim uma pessoa melhor. Bom, pelo menos até um certo ponto de viragem que espero que ocorra lá para os 90 anos!
Um dia destes e tenho de ir trabalhar (ainda por cima com poucas horas de sono) … bahhhhh… mais uma das injustiças deste mundo… aniversário devia ser feriado pessoal. Porque raio não tenho de trabalhar p.e. em feriados religiosos que nada me dizem e tenho de trabalhar hoje que me apetecia andar a pé pela marginal a beber água de coco e a pensar na vida? Acho que vou instituir na minha constituição pessoal um feriado privado. O dia de anos!
Estou particularmente pensativo e pouco produtivo hoje… deve ser normal… não consigo deixar de fazer um balanço dos últimos anos… é o meu primeiro aniversário pós licenciatura… “…what if?” penso nos vários caminhos que podia ter tomado, nas subtis coincidências que me trouxeram até aqui e no caminho que estou a seguir… Qual é esse caminho? Não sei muito bem… Ainda. Assim como a terra é uma esfera quadrada que gira parada à volta do sol, e Deus escreve direito por linhas tortas, também a vida é uma encruzilhada de possibilidades e improbabilidades, opções e imposições, encontros e desencontros. Nunca saberemos o que podíamos ter sido ou tido, o que devemos é saber quem somos e fazer o melhor possível com isso!
Ao fim da tarde reúno os novos amigos à volta de uma mesa para dois dedos de conversa e depois é jantar em casa com os “manos” e cama porque os dias cá começam cedo.

Desigualdade de desenvolvimento

Tudo isto faz com que a minha velha ansiedade sobre as injustiças do mundo e a desigualdade de desenvolvimento volte aos lugares cimeiros do meu processador cerebral.
Como é que nós conseguimos dormir descansados quando gastamos mais num simples jantar e cinema do que a média anual per capita gasta em cuidados de saúde em muitos países?
Como é possível gastarmos individualmente centenas de litros de água por dia quando no mesmo mundo e no mesmo dia há milhares de pessoas a morrer por não terem acesso a água de fonte segura?
Como é que se gastam milhões em cosméticos num mundo onde há seres humanos a morrer à fome?
Enfim, podia continuar com estas comparações “mediáticas”, mas o facto é que nunca como hoje soubemos tão bem que há muita gente em sérias dificuldades por esse planeta fora e nunca como hoje tivemos tantos meios e tecnologia para os ajudar.
Será que somos todos autistas?
Faziam ideia que menos de 5% das crianças infectadas com SIDA tem acesso a tratamento com anti-retrovirais? Pois é… custam um balúrdio… Há tecnologia e meios para produzir em grande escala e baixo custo. Só falta humanismo por parte das farmacêuticas que não abrem mão dos direitos… Oxalá houvesse por todo o mundo mais pessoal com a garra dos brasileiros que começaram a produzir os medicamentos mesmo sem licença. É certo que as farmacêuticas precisam do dinheiro para financiar a investigação responsável pelos avanços, mas que façam isso com o dinheiro dos direitos dos medicamentos vendidos nos países ricos. Os países pobres, está mais do que provado, não vão pagar o preço exorbitante que pedem e as pessoas vão continuar a morrer… Que raiva…
Bem… vamos lá ver onde é que estas deambulações me levam… pode ser que não venha mesmo a ser o Yuppie que há algum tempo decidi que nunca seria (mas que nos últimos meses, e principalmente durante a fase “contacto” em Lx me aproximei perigosamente…).
O futuro está turvo mas tenho ouvido bastante música africana (Mabulu, Ali Farka Touré, etc.) e sinto-me feliz. Tudo há de correr bem!
Vim a saber pouco depois de escrever as linhas a cima que o Ali Farke Touré tinha acabado de morrer devido a um cancro… uma perda. A “ai du” e a “soukora” saltam imediatamente para a minha playlist e faço uma pausa para as escutar em silêncio.

ressaca...

Dolce faire niente

Domingo! Dia santo! Vamos ao mercado comprar peixe, camarões, amêijoas e lulas. Sob ordens da excelência culinária da Elisa (directora de missão dos jesuítas em Moçambique) lá sai um arroz de marisco de meter inveja a qualquer omnívoro pensante e o pacato almoço acompanhado com agradável conversa dura até cair a noite. O dia acabou com uma sessão de cinema “O fiel jardineiro”.
Está decidido, o Fernando Meireles é um dos meus realizadores favoritos. Muito bom! Safa… tem cenas geniais! A ver o filme reúne-se um grupo curioso. Um farmacêutico, uma enfermeira/veterinária a tentar fazer investigação na área da tuberculose, duas directoras de projectos de ONG, e para inflamar as discussões com as nossas mentes pragmáticas: Eu e o Osvaldo, engenheiro e gestor! O filme é polémico e mete bem o dedo na ferida… africa abusada e explorada pelos países ricos, farmacêuticas sem escrúpulos, TB a regressar e dizimar a humanidade, trabalho das ONG, missionários, voluntários, etc… O filme certo visto com as pessoas certas e no local certo! Pena foi o sono já apertar pois pouco tínhamos ido à cama na noite anterior senão a discussão tinha dado pano para mangas.

armados em zé "nites"

Sexta foi naturalmente um dia difícil. Chega a noite! O destino chega por sms. Parece que há umas Jam Sessions no Gil Vicente que costumam ser boas. Vamos ver!
O ambiente está espectacular. Vários grupos ou indivíduos vão ao palco e cantam/tocam 3 ou 4 músicas. Alguns são fantásticos! Hendrix, Bob e até Rui Veloso levam o pessoal ao rubro. Ouvimos um bocado de tudo e fartamo-nos de abanar o capacete. Travamos conhecimentos com pessoal que por lá está e até com alguns dos músicos.
Conheci a directora financeira da fundação Agha Kan em Moçambique. É a Filipa, veio para cá no mesmo programa de estágios que eu e ficou! Aprendo um bocado sobre os Ismaili e o trabalho que a fundação desenvolve.
Com pena de todos no bar, e depois de vários regressos ao palco dos melhores da noite o Gil lá começou a ficar vazio. Eram umas 3 da manhã. E agora? Coconuts? Lounge?... nahhh… tamos numa mais local. Decidimos ir para a baixa conhecer o famoso “Luso” que nos falam desde o 1º dia. Chegados à porta o nome promete… “LUSO: cabaret – ‘nite’club”
Entramos e a praxe lá dentro é violenta. A mistura é no mínimo curiosa. À fauna do típico bordel (kengas e clientes típicos) misturam-se alguns estrangeiros, estrangeiras e moçambicanos que por lá param como se estivessem num bar normal.
Volta e meia lá aparece uma “dançarina” no varão! Está bonito isto… mais uma para currículo… ir a um bar de kengas… Estou indeciso se coloco esta experiência imediatamente acima ou abaixo da condução de um Land Rover a pingar óleo e fazer fumo pelo corredor das hortaliças de um hipermercado de uma conceituada cadeia portuguesa na lista das coisas improváveis que já fiz.
Peço uma laurentina e bebo pela garrafa (ai não… safa…).
Menos piada acho ao assédio constante que sofro apesar de estar sempre junto a uma amiga nossa que nos acompanhava… puxa que são chatas. Finalmente ao fim de 1 hora já todas as zelosas “funcionárias” disponíveis tinham percebido que nem eu nem nenhum do grupo estava cliente e lá descolaram. Na pista, a “pássada” vai alternando com uns sons mais europeus e já passava das seis da manhã quando vamos descansar as pernas. Foi giro numa de experiência, de praxe… mas não para voltar regularmente…

Polícia e cine bar África

Principio da tarde. Circulo pelos arredores de Maputo a caminho do estaleiro já perfeitamente adaptado à condução africana e à simetria do toyota. Com uma mão no telemóvel e outra no volante a dominar uma sessão de slalom para não acertar nuns mega buracos sinto-me um perfeito local! Eis senão quando me salta um polícia para a frente de apito na boca e mão ao alto. Já fui… branco, carro estrangeiro (o carro, da empresa, tem matricula da Suazilândia) … vou abrir os cordões pensei… Parei e o polícia aproximou-se, cumprimentou e perguntou: “para onde vai?”
Não sei por alma de quem a minha resposta foi: “Vou para o Zimpeto. Porquê? Quer boleia?”
Incrível… como é que me fui lembrar de dizer aquilo? Que lata… Safa… A verdade é que o policia não levou a pergunta a mal, entrou na boa onde e a partir daí foi só conversa fiada até que me mandou arrancar. Nem documentos pediu… isto é preciso é descontracção e estupidez natural!
Trabalho-casa, casa-trabalho lá passou parte da semana e chegou a esperada quinta-feira! Noite famosa no cine-bar Africa! Estávamos ansiosos por ir conhecer tão badalada catedral (qual lux…) da noite “do” Maputo. Chegamos a casa, mortos como sempre, mas um duche frio e um café levantaram o moral das formigas e após demorado repasto num tasco mesmo à porta de casa lá arrancamos transformados em boémias cigarras. Durante o caminho curtimos uma das fantásticas trovoadas secas de Maputo. Os relâmpagos sucedem-se durante horas, mas chuva nada. Escusado será dizer que este espectáculo dá um enquadramento tipo Fantasporto às ruas.


Chegamos. Paramos orgulhosamente o chasso à porta. O ambiente promete! Pelos vistos à quinta há sempre musica ao vivo e hoje são uns Tanzanianos que num estilo afro/sul-americano/jazz/xpto/gti lá vão tocando musicas africanas salteadas com pérolas como o “para bailar lá bamba” (não me lembro o nome da música…) lindo! Um espaço muito fixe, bem decorado e com uma fauna amigável. Havemos de voltar para curtir um bom som, umas laurentinas e dois dedos de conversa com tudo quanto é gente na cidade (sim, porque gente que é gente passa pelo africa na quinta à noite). O maldito relógio já vai quase nas 2.30 quando resolvemos ir embora… a alvorada é por volta das 6/7horas da matina porque nós estamos cá é para trabalhar! Quando saímos chove a bom chover… chuva quente e forte ensopa tudo e todos numa questão de segundos. O velhinho toyota – em modo anfíbio – lá vai saltitando de charco em charco e leva-nos sãos e salvos a casa.
Pedindo mais um milagre entramos no elevador lentaaammmmeeennnnttteeee lá chega ao nosso piso (para os mais cépticos lembro que em 3 elevadores, 2 demonstraram a teoria de newton e caíram… mesmo… um deles vinha do 20º andar cheio de malta e caiu do 4º, o outro nem me atrevo a perguntar…). Sem mais conversas, dentes lavados, xixi cama! O ambiente na casa é lindo, daqueles só possíveis neste sul do mundo. Temos as janelas abertas o que faz com que corra uma brisa (a fugir para o vendaval) pela casa. O vento quente que embala, os clarões da trovoada e o barulho incessante da chuva fazem me adormecer com um sorriso nos lábios! Africa no seu melhor!

MAPUTO@LAST!

Maputo

Maputo é de facto uma cidade sui generis. A grandiosidade com que foi planeada e construída, os mimos disponíveis (centros comerciais ao estilo europeu, restaurantes, salas de espectáculo, health clubs, etc.) e a vida cosmopolita e animada que levam os seus habitantes encontram a cada esquina poderosas antíteses. São caixotes de lixo submersos de tão sobrecarregados, são as ubíquas shotguns e kalashnikovs que sem pudor se mostram pela cidade a qualquer hora e qualquer lugar, são as heranças de guerra como o não parar nos vermelhos à noite e as grades em todo o lado.
Charmosa e problemática, Maputo é ao mesmo tempo capaz de envergonhar Paris e rosnar a São Paulo! Tão depressa estamos num climatizado centro comercial a levantar dinheiro em modernas ATM como de seguida encontramos os guardas à porta do prédio a jogar damas num tabuleiro de cartão com as casas traçadas a bic cristal em cima de uma cadeira de plástico apenas com duas pernas. E as peças? Caricas. De Laurentina (cerveja) para um e para o adversário, de Coca-Cola! Outras vezes, regresso a casa mais tarde e lá estão eles a cumprir o seu dever: dormir ferrados.

Tão depressa apanho um táxi torto e podre onde pura e simplesmente as portas não fecham, abana por todos os lados, está sempre a ir abaixo, só trava de duas rodas, etc. etc. etc., como de seguida vejo passar um HummerH2, ou um qualquer BMW ou Mercedes topo de gama. Muitos carros têm as peças marcadas para não serem roubadas – por exemplo, cravam-se as portas com rebites escrevendo siglas.
Tudo se vende nas ruas: artesanato, mont blancs, tanques de água, rolex, ray ban, fruta, legumes, peixe, pregos, escapes, fichas triplas, recargas para telemóvel (giros), tabaco avulso, etc. etc. etc., tenho a certeza de que se perguntar, até caixões me aparecem para escolher e regatear preço.

Uma nova cultura urbana com bastiões como o Hip-Hop e os carros “tunning” contrasta com as romarias das mais variadas crenças indígenas. Para os lados da costa do sol, até de madrugada se vê pessoal com trajes estranhos no mar, com água pela barriga a fazer feitiçarias.
E a diversidade étnica e cultural? Melting pot! Olho para um lado e vejo uma mulher muçulmana tradicional a fazer caretas com um bebé loirinho ao colo de uma senhora preta. Olho para o outro e vejo passar indianos, asiáticos e pelo meio alguns tugas de gema (pança, camisola de cavas e tudo!).
Os milhares de milhões de cafés e esplanadas da cidade são do melhor para beber tudo isto e empurrar com um copo de laurentina gelada!

Nas mesmas condições que eu vieram para Maputo mais 4 estagiários e resolvemos morar juntos. Alugámos um fantástico e enorme “flat tipo 4” com um salão de baile. Vamos ficar os 5 durante os 9 meses do estágio a pasmar com a vista do nosso 12ºandar… As traseiras têm vista para o mar. Curtimos costa até onde a vista alcança para os dois lados e de noite, por vezes, uma gorda e amarela lua surge do Indico e sobe, entrando-nos pela sala e cozinha dentro.
Para a frente, temos o cruzamento das que são as principais avenidas da cidade e avistamos pérolas como o famoso Piri-Piri. Como não podia deixar de ser, toda a grandiosidade do nosso prédio, a inteligência com que se encontra dividido e a sua localização fantástica contrastam com um avançado estado de degradação, com as portas duplas com grades, várias fechaduras, barras de ferro e cadeados. Quando finalmente abrimos as portas do nosso refúgio e pomos o pé no hall, há por lá sempre baratas (de dimensão generosa) a passear. Dos 3 elevadores apenas um se encontra a funcionar e esse… Jesus… abana, chia, treme, geme e tem tantos truques para ser utilizado que o condomínio contratou dois “motoristas” – o Sr. João e o Sr. José. Fazem turnos de 24 horas, alternados para a “condução” deste estóico tributo à engenharia portuguesa!

Tenho conhecido muita malta interessante. Alguns são ex estagiários do mesmo programa em que estou que aceitaram propostas de trabalho cá, outros, pessoal de ONGs, missionários, etc. Aprendo que afinal o país ainda não está desminado, acabou foi o dinheiro dos projectos de desminagem que havia e assim as ONG que tratavam disso foram embora, deixando ao esquecimento um problema bem real. Aprendo. Aprendo isso e outras coisas.

test

buhhh